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"Peixes" que geram vida


Com mais uma Semana Santa prestes a se iniciar, os mercados pesqueiros aguardam ansiosos o intenso aumento na venda de peixes. Isto é possível, em grande parte graças aos cristãos que ao longo dos séculos adquiriam o costume de, na ausência da carne, comer peixes como prática ligada ao jejum e abstinência próprios do tempo quaresmal e da Semana Santa. A prática já é tão costumeira que não paramos para pensar no sentido de comer peixe na Semana Santa, sobretudo na sexta-feira da Paixão.


Na Palestina do tempo bíblico, a grande parte das famílias tiravam seu sustento da agricultura, ou seja, cultivavam a terra que tinham e criavam animais. A base da alimentação eram os grãos produzidos, o azeite, alguns legumes e frutas, em especial a uva (fonte para o vinho, bebida mais comum na época), o pão, carnes de animais de pequeno porte e aves (Cf. Gn 1, 29; Ex 23,16. 29,2; Nm 18,12, Dt 7,13). Estes agricultores e pastores faziam parte da “classe média”, pois possuíam, em sua grande maioria, pequenas quantidades de terra. A estes, importantes taxas eram impostas e parte da produção devia ser enviada aos seus dominadores e ao templo (Cf. Gn 41,34; Dt 14,28). Haviam também aqueles que cultivavam a terra dos reis e do templo e que em geral não tinham acesso a estes mesmos bens produzidos.


Neste contexto, uma alternativa para os mais pobres na obtenção de alimento era a prática pesqueira, uma fonte que não requeria posse de terras e nem um investimento próprio. Numa região circundada por lagos e mares, os pobres estavam em maior número ao redor destes. Entretanto, nesta mesma cultura o mar é local do mal. Só peixes com escamas e barbatanas eram permitidos para consumo; todos os outros seres aquáticos eram proibidos e tidos como impuros. O mar, marcado pelo desconhecido era considerado baixo (infer) e por isto lugar da presença do mal, de feras e monstros que traziam a morte ao ser humano. Somente aqueles necessitados viviam então aí, perto do mar. Sendo judeus, tinham que se purificar a cada vez que tinham contato com todos estes seres do ambiente impuro.


Assim, na cultura judaica se o cordeiro é a carne das festas mais importantes (Ex 12,21), da corte, do templo (Ex 29,22), o mais nobre a Deus elevado (o próprio Cristo receberá posteriormente o título de Cordeiro de Deus), o peixe é ao contrário a “carne dos pobres”, dos mais afastados na comunidade, dos mais simples (Jo 6,9 apresenta junto aos peixes os pães de cevada, também os dos mais pobres). Este símbolo ligado aos pobres, o peixe, em grego “Ichthus”, será tomado como símbolo do cristianismo antigo, em referência a Jesus Cristo, o Filho de Deus pela qual nos vem a Salvação. Sua prática dignificadora para com os mais pobres e afastados da comunidade é iluminada por este símbolo. Jesus fez-se alimento, alimento de vida, para aqueles que viviam “a margem”.


Este costume alimentar de comer peixe ao invés de carne na Semana Santa não é, portanto, meramente simbólico, resultado de uma tradição sem sentido. Ele deveria nos implicar e abrir-nos para um aspecto muito mais profundo de nossa fé cristã. Ele aponta para uma comunidade que se importa com os que estão a margem da sociedade, nas periferias sociais e existenciais. Comer peixe neste tempo forte da experiência cristã deveria lembrar-nos que seguir a Cristo é estar em comunhão, é ser comunidade empática que se preocupa em trazer para o centro aqueles e aquelas que foram privados de sua condição filial, de gerar salvação para os que estão em condição de escravidão e no isolamento.


Nesta Semana Santa, sobretudo no sudeste do país onde o peixe não é mais prato dos pobres, mas dos mais abastados, importados e em bonitos pratos, que possamos nos lembrar do sentido original proposto pela Igreja, a abstinência e o jejum, ou seja, uma alimentação simples e pobre. Esta alimentação deve ser vista não somente como ato individual ou familiar de piedade, mas em profunda comunhão com o martírio de Cristo: é para dar a vida pelos outros, nossos irmãos mais necessitados, que somos chamados a sermos cristãos. Que nossa Sexta-Feira Santa, cheia deste sentido misericordioso nos possa abrir o coração para sermos “novos cristos”, preocupados e doados pela vida em abundância de todos e todas.

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